terça-feira, 16 de junho de 2009

Gracinha!

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Renato, meu maridão, é uma figura. Não passa ninguém ileso por ele. Do frentista ao garçom, da balconista de supermercado à vendedora de loja chique, até minha mãe!, não importa, ele não perde nunca uma chance de um chistezinho, uma piadinha, quaisquer gracinhas. Tem hora que tudo que eu queria era ser uma avestruz!

Neste feriado, impulsionados por uma dessas quase inacreditáveis mega promoções de companhias aéreas que vimos no início do ano, fomos passear em Lima, capital do Peru. A cidade é surpreendente, adoramos, voltaremos se possível etc. e tal, mas o foco aqui é outro.

Fui a um dos inúmeros centros de artesanato indígena/peruano (milhões de tendinhas montadas quase em cima umas das outras com zilhões das quinquilharias baratinhas - e outras nem tanto - que eu adoro), e o Renato foi comigo. Antes de se cansar logo no começo, e querer ir sentar e ficar resmungando da demora que fico pra escolher entre uma llaminha com lacinho cor-de-rosa ou com lacinho vermelho - tenho de confessar que eu tenho um certo problema com escolhas e abdicações inúteis - passamos numa tenda que tinha uns apitinhos de cerâmica muito legais, que ele adorou, e cismou de levar.

Como não podia deixar de ser, com a simpatia que lhe é peculiar na hora de zoar com a cara dos outros, mais peculiar ainda pelo portunhol, ele perguntou à vendedora, uma típica índia peruana: "Ah, estos apitos son para llamar las llamas?!". Mas, como poucos, esta indiazinha entrou no clima da piada. Depois de olhar incrédula para ele durante alguns segundos, ela respondeu, bem satiricamente, mais ou menos como traduzo aqui: "ah, sim, sim, sabe, elas ficam lá, soltas pelo campo, aí você apita e elas vêm correndo até você...". Além da cara cômica que ela fez pro Renato, a gargalhada alta e gostosa que uma outra peruana que estava atrás do balcão da tenda soltou ao ouvir essa conversa de loucos coroou a resposta imbecil para a pergunta idiota!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Informação (in)útil

Para pegar uma carona no post anterior: 



sexta-feira, 22 de maio de 2009

hd externo humano

Hoje a gente não precisa mais de memória de elefante. Basta saber usar o google.

Eu, minha mãe e meu irmão, minha madrinha também, tínhamos uma mania engraçada: quando a gente tava falando sobre algo e esquecíamos alguma coisa que queríamos muito lembrar, tipo "como mesmo era a letra daquela música?", ou "gente, quem era mesmo o ator daquele filme, ele trabalhou com aquela menina num outro filme, aquela que fez o filme do cara esquizofrênico, sabe?..."- a gente ficava tão, mas tão agoniado, que ligávamos uns pros outros pra ajudar a dar um tapinha na memória. E quando, mesmo assim, ninguém sabia, não tinha jeito. Não tinha internet, não tinha como linkar as coisas se cada um envolvido ali na conversa não tivesse um background suficiente para encaminhar as conexões até um ponto comum que fizesse com que se identificasse o objeto da dúvida. Volta e meia essa dúvida ficava incomodando até um estalo soltar a informação que queríamos da ponta da língua, numa comemoração exaltada. Às vezes, dias! E aí, pronto, a gente ligava pros outros e falava "Aha, Lembrei! Tommy Lee Jones!". Ou você lembrava mesmo ou se dava o trabalho de ligar na locadora e pedir o carinha que te indicava os filmes pra ler o elenco do filme tal pra você. Não tinha tapeação.

Hoje, hum, minha nossa, como é fácil "lembrar" as coisas! Geralmente, com duas ou três palavras, se consegue uma informação inteira sobre como, qual e de quem era aquele poema do qual você só se lembrava de um verso. Basta "dar um google" rápido e pronto! Tá lá tudo o que você queria saber. Na mesa do bar: se o seu celular não conecta na internet, certamente o de alguém que está perto de você conecta. Pronto, você vai "lembrar" que o nome daquela atriz que fez um curta super legal sobre cigarro era  Laura Cardoso, e vai lembrar também o nome do curta, se quiser, ou toda a novelografia da atriz, se era esse o assunto, ou o que for.

Quando você lê alguma coisa legal, quando ouve uma música nova e acha boa, um poema, um vídeo, uma história, notícia, você não precisa mais parar pra prestar atenção, procurar saber naquele momento do que se trata, não desligar o rádio enquanto o locutor não fala o nome da música e do compositor. Basta lembrar de partes, organizar a informação na cabeça por tags. Guarde o tag, não precisa mais nada. Quando precisar da informação de novo, use o tag que guardou e "dê um google" nele. Pronto.

E isso faz com que eu ache cada vez mais fascinantes as pessoas que têm as informações completas na cabeça, e não no hd externo!

terça-feira, 19 de maio de 2009

A FAU EM GUERRA E OS GUERREIROS EQUIVOCADOS

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A FAUUSP está em reformas. E em guerra.

Resumo da ópera: qualquer um que visitar o famoso prédio da Faculdade de Arquitetura da USP, projetado pelo não menos laureado Artigas, pode ver que sua situação de conservação é gritante. A administração atual teve como meta, desde seu início, partir para diversas soluções de reformas e projetos a serem adotados enfocando o edifício. Parte da comunidade, composta por cerca de 150 professores (arquitetos) e cerca de 1000 alunos, considerada a pós-graduação, e por funcionários, manifestou-se indignada com a forma como foram conduzidos esses projetos. Foram realizadas assembléias gerais e reuniões de congregação abertas, lotadas, e pedras voaram a torto e direito. Dentre as requisições dos alunos, estava a paralisação completa das obras - a única que perdeu em votação -, pois se decidiu que aquelas já licitadas continuariam. Não satisfeitos por perderem a votação, os alunos partiram então para a destruição dos tapumes que protegiam a reforma dos departamentos, uma das obras que não foi paralisada, ato perfeitamente caracterizado como vandalismo, independentemente do peso da palavra como opinião aqui (ao menos neste parágrafo).

Há inúmeras questões que podem e devem ser analisadas e criticadas em toda esta situação política na FAU, mas eu vou falar apenas de uma: a atuação dos alunos.

Boa parte da indignação dos alunos neste processo, que culminou no vandalismo da tarde de ontem, é o fato de acharem que seu direito de voto nas instâncias deliberativas da faculdade é pequeno, e que assim, eles não conseguem se fazer valer. Ora, eis aí o que explica a subversão. Quem ganha as decisões não tem o mínimo motivo para subverter a ordem - óbvio. Neste caso, a destruição dos tapumes foi pura pirraça: "eu quero." / "Já expliquei que não pode, filhinho, já discutimos isso antes..." / "Eu quero, Eu quero, EU QUERO", e aí chora, deita no chão e rola, sapateia. Depois de um processo de diversas assembléias e discussões e atitudes "democráticas", eles não conseguiram tudo o que queriam e partiram para a pirraça.

O que o movimento estudantil como esse que observo na FAU tem que entender é que essa briga não leva a nada se tocada desta forma. O máximo que eles podem conseguir é deixar a administração completamente de saco cheio de qualquer empreitada a favor do prédio (se fosse o caso de uma administração apática e fraca), o que faria a FAU perder recursos e ficar por mais, pelo menos, meia década sem que nada aconteça para a preservação do prédio - tombado, diga-se de passagem. No caso, o que eles conseguiram foi a retaliação de toda a comunidade. Os departamentos fecharam, os funcionários se manifestaram de diversas formas, e, o que de mais significativo para a retaliação poderia acontecer: a biblioteca fechou em sinal de protesto.

Bom, não adianta pleitear mais lugares nas cadeiras da Congregação, Conselho Curador etc. Os alunos têm assento equivalente a 10% dos professores nestas composições, e é assim em todas as instituições públicas de ensino superior. A Lei de Diretrizes e Bases garante aos professores um mínimo de 70% de representação em quaisquer instâncias. O Estatuto da USP, seu Regimento Geral e o Regimento Interno da FAU definitivamente não estão incorretos na forma como designam a composição das representações. E eu não vou perder meu tempo discutindo a completamente nula possibilidade de um movimento estudantil reverter isso, e os eventuais motivos equivocados que ele tenha para isso.

Pra mim, a questão é na verdade, apesar de difícil, simples. Se a participação deles nas deliberações é pequena, partir para o vandalismo não fica bem na fita; só faz com que percam credibilidade. Se eles querem tanto provar que têm razão em suas demandas, que se organizem para formar uma argumentação convincente e embasada de tudo o que defendem e partam para a busca de alianças que façam com que sua voz, baixa, possa reverberar ampliada através da voz de outras pessoas que têm poder decisivo. Que corram atrás dos professores chefes de departamentos e/ou que compõem os conselhos. Que corram atrás dos professores que influenciam esses professores. Que convençam os funcionários que têm voto. Que se façam valer pelo poder de persuasão daquilo que defendem. E, at last, but not least, que parem de chorar e engasgar quando lhes é dado o direito a voz. A carga emocional que tenho visto na gritaria desses meninos faz com que a coisa pareça pessoal e egocêntrica. Entendo até que a questão muitas vezes deixa de ser a FAU, mas sim a capacidade de liderança pessoal e sua aparência na comunidade.

Ai, que déjà vu! Eu que achava que estava livre de brigas políticas e fogueiras de vaidades acadêmicas depois de uma relativamente longa participação em movimentos e representações estudantis durante minha vida universitária. Ledo engano. Cá estou eu me vendo novamente no olho do furacão, caindo de paraquedas num setor da FAU que trabalha com projetos justamente quando há uma guerra por causa destes projetos... Minha posição poderia ser a de, estando no olho, observar calada tudo o mais girando na bagunça. De certa forma, até vem sendo. Mas não pude deixar de ficar ruminando sobre tanta movimentação, não teve como ficar tão calada assim.

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links:
Capítulo IV, Art. 56. As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional.
Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes.





"Shit Happens"

Icq (I seek you)
MSN
Googletalk
Orkut
etc.
... e agora o Twitter

Não pude deixar de achar legal demais uma instalação que uns meninos fizeram, pura escatologia e crítica, afiadíssima!

Vá ao banheiro, faça um cocozinho e diga para mundo! Ele não seria o mesmo sem essa informação.

LINK:

terça-feira, 12 de maio de 2009

Abstenção criativa

"Sanity calms, but madness is more interesting."
John Russell 

Laura, uma amiga, me mandou isso há muito tempo, quando conversávamos sobre nossas cabecinhas doentes.

A questão não é essa. Escreve-se muito mais e melhor em tempos de turbulência. Ando calma, calma e feliz. Por isso não escrevo mais, ou quase não escrevo mais. 
A loucura é muito mais interessante...

segunda-feira, 16 de março de 2009

"A propaganda é a alma do negócio"

Sempre perdi as coisas. Desleixo, descuido, falta de atenção, não sei exatamente o que acontece. Acontece que eu sempre perdi as coisas. Procuro não me apegar demais a nenhum objeto em minha posse; vez por outra, vou perdê-lo.

Na infância, época de férias, praia, o que eu mais perdia eram os chinelos. Sempre os perdia em algum lugar. Porém, quando se é criança, ainda há a esperança de que o pau que nasceu torto se endireite, e lá vêm os castigos. Não me esqueço do dia em que, cansada de me ver perder os chinelos, minha mãe falou a temida frase que eu não queria ouvir: “você agora vai ter de usar havaianas”!

Meu Deus, que vergonha, eu não podia acreditar naquilo, usar havaianas era terrível, era o maior atestado de pobreza do mundo, o que as outras crianças iam pensar de mim?! Na época, só havia no mercado as havaianas com as tiras azuis ou pretas, de solado branco, que surravam, encardiam, desgastavam e ficavam horríveis. E as tiras sempre soltavam, era o ó do borogodó. O fim. Não havia absolutamente nenhum glamour ou look descolado, não existia hippie-chique, não tinha desculpa. Pena que não encontrei uma foto dessas férias, em que eu apareço meio desconcertada e tentando esconder os pés por estar calçando havaianas.

Hoje, não preciso falar. Têm havaianas comercializadas pela Chanel e H. Stern...

Fui parar na Croácia em época de eurocopa e não é que encontrei por lá um carregamento das nossas famosas sandalinhas com a bandeira da Croácia estampada!


quinta-feira, 5 de março de 2009

A CHICA

Enfim, a minha gata.



Depois de toda a história dos gatos passados, decidi que, de uma vez por todas, era a minha vez. Eu teria um gato, e pronto. Já faz tempo, mas só quero fechar a saga com um final feliz.


Compadecido com meu sofrimento pela perda do Chico, bom, que descobrimos ser uma gata, ter dono e etc. e tal, logo em seguida à sua devolução, o Renato me levou à feirinha de animais que acontece aos domingos em frente à COBASI, uma espécie de megastore voltada só para animais de estimação e jardinagem, paraíso dos amantes de bichos. Pretendíamos adotar um gatinho.


Depois de atravessar um milhão de barraquinhas de cachorros, cheguei a uma senhora que tinha mais bigode que a Frida Kahlo, suja e maltrapilha, com um nariz adunco onde só faltava uma verruga cabeluda para completar a figura exata de uma bruxa de desenho animado. Numa caixa, mais horrorosa e mal cuidada que a mulher, colocados lá de qualquer jeito com apenas uns furinhos para respirar, estavam vários filhotinhos de gato. Dentre eles, uma bolinha de pêlos pretos que viria a ser hoje a Chiquinha. Acuada e quieta, fiquei com medo de que ela não aguentasse aquela judiação, era a menorzinha, segurei e não soltei mais minha gatinha preta. A tal bruxa, praticamente vendendo gato por lebre, ainda tentou nos convencer de que era uma angorá e que valia sei-lá-quanto. Fingimos que acreditamos (a Chica é uma vira-latinha de marca maior), demos um dinheirinho menor para ela e lá fomos nós para casa, eu, Renato e a Chica. A veterinária da Chiquinha não se conformou de eu não ter denunciado a velha...


Enfim, após uma alta grana com clínica veterinária, remedinhos, banhos, vacinas, tratamento de fungos, exames, ração, baldes, areia, e uma pá de outras coisas mais, apaixonamo-nos por esta bichaninha que nos diverte com seu "e-pisa-e-passa-cuidadoso-de-mansinho-corre-corre-silencioso-atrás-de-um-pobre-passarinho", parando e pulando, de frente, de lado, uma figura, louca de pedra! Como bem disse a Mirna, amiga croata que conheci através da Melita e que ficou lá em casa uns dias, a Chica é uma "born-to-be-wild-cat"! Sai correndo num pique que ninguém entende, parece doida. Depois volta morosa, mansa, como se estivesse assobiando, disfarçando e pensando "por que mesmo foi que saí correndo?"


Agora, ela já tá crescidinha. Cada dia que passa fica maior e mais graciosa, nossa panterinha egra. Já estou até com saudade de quando a pegamos, em outubro do ano passado, quando ela ainda era um pisquinho de gato e vivia em nosso colo... Agora, não anda lá querendo muito colo, está numa "independência" insuportável. Mas adoro quando, ao chegar em casa, ela sempre vem correndo e escorregando pela sala para se enroscar nas minhas pernas.


Adoro gatos. Adoro a minha gata. É minha, e agora ninguém tasca!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A história dos gatos passados

Minha madrinha sempre teve gatos. De que me entendo por gente pra cá, lembro-me de três: Marquês, Pink, e o atual, Léo (número que me faz duvidar do conhecimento popular de que os gatos têm sete vidas, considerando-se que, a tomar pela minha idade, numa conta pra lá de arredondada, eles tenham vivido em média cerca de 9 anos, cada). Enfim, eu sempre fui louca por bichos, e não menos, ou até mais, por gatos.

Não consigo me esquecer do dia, e olha que faz anos!, em que a manicure da mamãe, Leila, achou uma gatinha perdida na rua, uma siamesinha linda, e acabou não lembro porquê levando-a para mim de presente. Em segundos eu já estava apegada à gatinha como se tivéssemos nascido juntas. Ela era extremamente carinhosa, amassava minha barriga como gatinhos de desenho animado, dava voltas em torno do próprio corpo e se aconchegava de tal forma em mim que eu não queria me mexer nunca mais, só para que aquela coisinha fofa ficasse lá para sempre. Humpf, não durou horas lá em casa. Meu pai, completamente averso a "bichinhos carinhosos", não quis saber de mas nem meio mas. Ainda tentei presenteá-la à minha tia Silvinha - num período entre o Pink e o Leo, em que ela não tinha um gato, e que eu não levei em consideração na minha conta do primeiro parágrafo; seria uma maneira de manter o contato, mas, naquela época, meu tio Julio ainda apitava alguma coisa em casa e não concordou com a adoção. Lá fiquei eu sem a gatinha...

Outro fato do qual não posso jamais me esquecer, que sempre me traz sensações horríveis quando me vem à memória, remete-se a um filhotinho de "pé-duro" que me achou na casa de praia em Lauro de Freitas, Bahia, onde passei muitas férias com a família. Este gatinho literalmente me achou, não fui eu quem o achei, porque o bichano apareceu do nada e, depois de uns cafunés e um pires de leite, não saía mais da minha aba, pro meu maior deleite (eu já me via como a encantadora de gatos!). Tsc, tsc, tsc, não adiantava ser uma casa de praia, com espaço, época de férias, nada apaziguou o coração de pedra do meu pai. Mais uma vez, o algoz da minha relação com os felinos entrou em ação, e desta feita, a coisa foi feia, ainda que não intencionada: sabendo que não haveria como fazer com que eu e o bichano nos afastássemos, meu pai, levado pelo conhecimento geral de que os felinos são excelentes saltadores, o jogou para o lote vizinho, pelo muro. Deveria ter se chamado Policarpo, este gatinho, pobrezinho, pois foi triste o seu fim: enganchou-se todo num arbusto que havia junto ao muro, ficando todo estropiado, ganindo, à espera da morte certa. Talvez o horror que senti então tenha me feito apagar da memória quais tenham sido as medidas tomadas depois para abreviar o sofrimento do coitadinho.

Mas meu amor pelos bichanos permaneceu. Passadas infância e adolescência sem absolutamente nenhum êxito com relação aos felinos, a primeira e única condição que impus (bom, um pedido com a malícia de toda mulher nada mais é que uma imposição) ao meu marido foi a de que ele me permitisse ter um gatinho em casa. Promessa feita, resolvemos então que procuraríamos alguma ONG ou entidade qualquer que tratasse da causa dos gatinhos abandonados por aí e adotaríamos um bichinho para estimarmos tão logo tudo se organizasse na vida de casados.

Recém admitida na atual empresa em que trabalho, me liga um colega do trabalho:

"-Alô, Bárbara?
-Oi, Mauro, tudo bem?
-Você não queria um gatinho? (Aqui os parêntesis são abertos só para comentar que, como quem me conhece bem sabe, não preciso de mais de duas semanas de trabalho para que todos os colegas saibam tudo sobre mim).
-!!!Sim!!!
-Ah, então tá, apareceu um aqui, procurei o dono nos arredores, não achei, não posso ficar com ele, você quer que eu leve aí????
-Só se for agora (pulando de alegria)!!!"

Aí chega ele. Meu Deus do céu, o gatinho dos meus sonhos! A coisa mais fofa da face da terra. Um dengo, logo já tomou conta da casa, do sofá, e, de quebra, do marido. Apaixonou-se irremediavelmente pelo Renato, e então pronto, o colo agora era só dele. Chamamo-os de Chico e a felicidade ficou completa. Comprei-lhe granulado especial para as necessidades, bacia com pazinha, afiador de unhas, comidinha especial, fiquei completamente derretida... Mas eu já devia ter aprendido que o santo deve sempre desconfiar quando a esmola é demasiado generosa, ou que a laranja quando está madura na beira da estrada certamente está bichada ou vem cheia dos marimbondos no pé... Eis o Chico: absolutamente limpinho, cheirosinho, garrinhas cortadinhas, coleirinha com sininho no pescoço, todo fresquinho, só fazendo suas necessidades depois de ver a areinha especial limpinha (e ai ai ai se tivesse um sujinho que fosse lá, ele empinava o nariz), foi direto na ração, o gato perfeito. Obviamente seria logo reclamado, e a tolinha aqui nem cogitou esta possibilidade. Nem bem começava a lua de mel com o gatinho, o Mauro me liga comunicando-me que a dona do gato, que na verdade era uma gata, estava louca atrás do Chico... Da Chica... Ah, uáréver, @#$%¨&*!!! Mal terminou a comunicação já estava eu debulhando em lágrimas incontíveis. Até o Renato ficou triste...

Ei-lo...

O gato que era gata, que era meu, e que não é mais...

Como boa Scarlett O'hara que qualquer mulher que se preze deve ser, não me dei por vencida. Mas dada a extensão que já tem este post, deixo para contar o final da história num próximo! Então, até o próximo!

domingo, 31 de agosto de 2008

Meu nome é Walfrido

Um título de rainha das gafes me seria injusto, porque certamente há quem as cometa mais que eu, mas títulos de duquesa ou marquesa das gafes bem me serviriam...

Um dia desses, estava eu em Confins e vi um cara que, de relance, pareceu-me muito com um conhecido, de quem gosto muito, mas que não via há um bom tempo. Ele parecia diferente, era melhor não correr o risco. No entanto, quando eu estava já desistindo da possibilidade da gafe, percebi que ele também cruzou o olhar e parou numa centelha de instante, esboçando um sorriso. Não tive dúvidas, só podia ser ele. Cheguei perto então, ele completou amplamente o desenho do sorriso e logo eu disse: “Carlos, meu querido, que bom te ver, tá diferente, sem óculos...”. Nem bem terminada a frase, vi que seu sorriso se fechou abruptamente numa sentença: "Walfrido. Meu nome é Walfrido".

Mais que depressa eu me recompus, desculpei-me e dei o fora, só segundos após a debandada dando-me conta de que era o famigerado político e empresário Walfrido Mares Guia.


quarta-feira, 11 de junho de 2008

Vôo 3345

A vontade de escrever sobre as agruras de aeroportos e vôos certamente já passou pela cabeça de inúmeras pessoas que usam aviões por meio de vida. Bom, se há vontade de escrever ou não, eu não sei, mas que agruras há, se há!

Meu vôo de hoje não se atrasou, mas a odisséia foi memorável!

Para começar, comprei ontem um lindíssimo sapato por uma bagatela, em um brechó. Justamente pelo sapato ser lindo, pelo seu preço baixo, e por tê-lo comprado em um brechó, eu cismei que um pé número 38 ficaria perfeito em um sapato número 37 e, pior, cismei que a cisma não era cisma e que eu poderia sassaricar à vontade pelo longo e tortuoso caminho entre meu cotidiano em Beagá e a porta do avião, a caminho de braços amados em Sampa (claro, tudo para ficar linda e impressionar meu bem). Como toda boa cisma nunca presta, cá estou eu com os pés em chagas, e o avião nem decolou ainda, para começo de odisséia.

Cheguei cedo hoje. No check-in, o ambiente tenso, as reclamações e a insatisfação de todos, de sempre. Espera sem fim... Em pé... Os pés doendo...

Como me praz fazer, fico a observar os tipos. Um em particular me incomoda terrivelmente. Está na fila da classe executiva, fila privilegiada, gente chique, discreta, geralmente. Não este. Era um patolinha dum latinão super extravagante, portando inúmeros aparelhos eletrônicos que alternava no manuseio, mas, o que mais me incomodou, sempre a falar no celular hands-free num volume de voz absurdamente inadequado, enfatizando palavras clichê do vocabulário do mundo dos negócios como se fosse o rei do varejo da cocada preta, e, o pior, com a mesmíssima entonação de voz com que fala um cara que eu detesto e que não perde uma chance de me cantar (tipo de situação que me faz me sentir ofendida: se um cara “tudo-de-ruim” se sente no direito de me cantar, será que ele acha que sou pro bico dele? Se sou, puta-merda, quero me matar! Eu e essa mania de ser “simpática”...).

Enfim, deixa o cara pra lá...

Quando entro na sala de embarque, tudo o que quero é ficar sossegada e conversar um pouco com meu ansioso amor enquanto o vôo não vem, dar notícias, dizer que está tudo bem e que logo estarei em seus ansiados braços. Eis que encontro uma ex-sogra que não via há anos, eu, o tipinho-conquista-sogra-pra-prender-namorado básico, e ela me pega de conversa que não acaba mais...

Enfim, a voz sempre anasalada das locutoras de aeroportos chama para o embarque do vôo 3345. Não sei por que cargas d’água, a fila fica estancada por uns dez ou quinze minutos, o que para meus pés em chagas nos lindos-sapatos-novos-a-preço-de-banana-por-isso-mesmo-apertados pareceu uma eternidade. Para piorar, tem um japonês ‘trás de mim que não pára de tossir agressivamente, dando uma escarrada que acho que puxava até osso a todo instante. Argh!

Enfim, dá-se o embarque, “enfim, vou me assentar”, eu penso. Humpf, logo que entro, percebo do início do corredor que já há alguém em minha janela, de que sempre faço tanta questão. Não sei se me enervo mais pela probabilidade da minha passagem ter sido vendida com duplicidade (o que já aconteceu), pelo fato da mulher que está em meu assento não sair do celular para poder me responder se ela era uma anta e tinha se assentado no lugar errado (ou se o problema era maior), ou se pela agudeza da dor nos pés. Depois de uma infinidade de segundos (sempre com os pés a latejar), a mulher desliga o celular e eu me tranqüilizo ao saber que, sim, ela era uma anta, e o assento 7F era mesmo meu.

Quando finalmente parece tudo divino maravilhoso, chega o passageiro que se assentaria ao meu lado (desta vez, não dei a sorte de viajar sem nenhum provavelmente-chato ao lado), surpresa: ninguém mais ninguém menos que o latino patola e barango que gritava no celular e tinha a entonação terrível de voz que me fazia lembrar do cara chato que me enche o saco. Continuava sempre com o hands-free a tagarelar, até que o aviso de bordo o mandasse desligar (pelo amor de Deus!), os apetrechos eletrônicos e as atitudes de rei-do-varejo-da-cocada-preta-pra-todo-mundo-ver.

Ainda bem que, ao contrário de me irritar, tudo isso me diverte, pois minhas idas e vindas em vôos são em função de encontrar braços amados, o que sempre deixa a vida cor-de-rosa.

Coitados dos executivos!

Public Displays of Affection

Não sou lá muito fã de pieguices, apesar de ter crescido ouvindo o chato do Gu, o irmão, sempre me chamar de piegas. Talvez por isso, eu tenha me desenvolvido tentando sempre ser o menos piegas possível.

Entretanto, há momentos, principalmente quando floresce o amor, em que se torna um pouco inevitável a pieguice... These public displays of affection, surely your love must be new.

Isso justifica também, em parte, a longa ausência de postagens.

Enfim, uáréver. Há épocas também em que nos sentimos imunes ao chicote alheio, sentimo-nos imunes ao criticismo  pimba .

Por falar em pimba, o motivador das futuras eventuais manifestações públicas de amor nas postagens deste blog (cada vez mais egocêntrico) tinha de ser paulista... Tsc, tsc, tsc. E eu tinha mesmo de morder minha língua!?

Long live l’amour!

domingo, 6 de abril de 2008

O complexo da pecinha de Lego

Semana passada eu fui ao novo ninho de amor dos Orleans e Bragança, meus afilhados, para conhecer a Lola, nova integrante da família, e palpitar algumas coisinhas na organização do apê. Palpites que, dado o bom gosto do casal, acho que eram completamente dispensáveis: o apartamento está lindo, refletindo fielmente a beleza dos moradores.

Quando finalmente fomos tomar um vinho e a Denise colocou a Lola para dormir (a bradar "pára, Lola, pára"), chegamos à conclusão de que, infelizmente, a sua linda mesinha de ferro era a pecinha de Lego que não poderia ficar na sala. Foi o Zé quem me explicou a teoria, que relatarei aqui.

Segundo a explicação do mal, há determinadas peças no Lego que se tornam o objetivo central de qualquer montagem: uma cerquinha amarela, um hidrante vermelho, uma hélice cor-de-burro-fugido, um escudo com um brasão, sei lá, nunca brinquei de Lego o suficiente para saber quais são elas. Quando, enfim, constrói-se o mais lindo castelo, navio, nave espacial, o que for, a peça já não cabe mais, não há onde encaixá-la. Mas ela é o objetivo central, ela tem que entrar, oras bolas, despendeu-se um enorme esforço para que ela fosse evidenciada e agora já não há onde encaixá-la sem estragar completamente a composição. Após momentos de dor, dilemas e frustração, ou se resolve deixar a coisa construída e a pecinha esquecida, ou destrói-se tudo para começar de novo, incapazes que somos muitas vezes de entender que determinadas coisas não são tão importantes assim.

segunda-feira, 31 de março de 2008

AIR



Carol Scucato, querida amiga, além de não me achar roda-dura e me dar o maior apoio, ainda me apresentou esses caras! Dívida eterna, Carol!

Os caras são bem pedantes, têm voz de mulher, mas as músicas são excelentes - principalmente o álbum "Talkie Walkie" - e este vídeo, apesar de um pouco difícil de entender (eles não se esforçam nenhum pouco para fazer o sotaque ficar menos francês, principalmente o cara sem barba, pronunciando os "th" com som de "z" e emudecendo todos os "h" iniciais), é esteticamente super bacana.

quarta-feira, 19 de março de 2008

pequena causa e grande raiva

Não fosse a minha total descrença na justiça para pequenas causas, e não fosse também a minha total crença de que há pequenas coisas muito mais importantes a fazer do que passar raiva na justiça por causa de uns risquinhos que não mudarão em nada a minha vida, e que não darão em nada também, eu entraria no juizado de pequenas causas por conta deste poste!

Rodando como faço todos os dias, na cidade inteira, fazendo balizas a torto e a direito, estacionando, saindo, quebrando a cabeça a procurar vagas, o costume do cachimbo acaba por deixar a boca torta. Acostumada que estou a postes em cima das calçadas, eu jamais poderia imaginar que aquele que usei como um dos pontos de referência para estacionar meu carro - reflexo condicionado - estivesse praticamente na rua, FORA do meio-fio!

Fosse em qualquer lugar da cidade, eu já teria raiva, mas ela foi maior porque o dito cujo está nesta situação em plena rua Muzambinho, AO LADO DO PRÉDIO onde fica a SECRETARIA MUNICIPAL DE REGULAÇÃO URBANA! Não sou muito fã de textos com caixa alta, exclamações demais e etc., mas isto merecia!

Lógico, arranhei o carro. Além da raiva, ainda tive que agüentar encheção de saco de um ou outro mala-sem-alça olhando o arranhão e me chamando de roda-dura! Ai, que raiva!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

falácia

“Se não tivesse o amor / se não tivesse essa dor / e se não tivesse o sofrer / e se não tivesse o chorar / melhor era tudo se acabar”







Melhor deixá-los para os poetas. O amor e a dor. Ou a paixão e a dor. O amor - e sua ampla gama de significados - não é exatamente o que está em questão aqui. Mas a paixão. Aquela doentia. Mas dizer “amor” é mais bonito que dizer “paixão doentia”. Então, onde se lê um, leia-se o outro.

Amores arrebatadores são bons quando somos adolescentes, e podemos ser inconseqüentes. Matamos aula, matamos estágio, matamos a família inteira como desculpa para viver o amor. Perdemos o ritmo e o rumo, nada se faz direito a não ser amar e curtir o amor. Até parece saudável, qualquer um fica mais bonito, brilhante, eufórico, invencível! Isso quando se é correspondido. Quando não, é um martírio.

Mas é completamente insustentável. E não é definitivamente saudável. Devia ser proibido. Principalmente quando acaba, e sempre acaba. Ainda que nem sempre o relacionamento, mas o sentimento. Mas quando o sentimento acaba, acreditem, é ótimo. É uma tranqüilidade só. Tudo volta pro prumo, e é assim que deve ser, segue um lindo companheirismo. Nada melhor que a amenidade. É impossível viver doentiamente apaixonado sempre. Não acredito em quem diz que viveu a vida inteira “perdidamente apaixonado”. Mentira pura. Ataque cardíaco mata muito, é o que mais mata.

Tenho visto ultimamente bons e velhos amigos (ambos os sexos, não é privilégio de nenhum) se acabando de amor. Velhos de guerra se acabando de amor!? Não, não façam isso (como se não fosse mesmo inevitável...)! Deixem o amor pra quem não sabe nada da vida ainda. Vivam o querer bem. Este sim, o saudável sentimento construtivo de se estar junto. Sem amor, sem dor, sem graça.

“Hoje tenho apenas uma pedra no peito / exijo respeito / não sou mais um sonhador / chego a mudar de calçada / quando aparece uma flor / e dou risada do grande amor / mentira!





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

uma esmolinha aí?

Nas portas dos bancos, há sempre um pedinte travestido de mendigo estrategicamente situado para tocar o coraçãozinho mole de qualquer um que vai ali justamente para lidar com o que ele quer: dinheiro.

Daí a historinha que não aconteceu, pelo menos não comigo, mas que poderia ter acontecido.

Estacionei o carro exatamente em frente à agência do Banco a que sempre vou, coisa rara, está sempre tudo ocupado. É que hoje eu vim cedinho, mas, antes de mim, já tinha chegado o “engana-trouxa” que está sempre lá, a qualquer hora do dia ou da noite que me lembro de já ter ido lá. Beep do alarme, carro trancadinho, é um pulinho só, nem liguei o freio-carneiro, travei o volante, corta-gasolina, etc. Saquei meu suado dinheirinho, rezando pra não ter deixado o saldo negativo. Pronto, tudo resolvido. Mas hoje, estava cedo, resolvi não ignorar o jargão “uma moedinha, dona” do pedinte, resolvi não ficar irritadíssima por ele ter me chamado de “dona”, não fingir que ele não existia – para minha conveniência –, e me sentei no mesmo degrau da escada em que ele estava sentado. Munida de uma caneta, um papelzinho de rascunho e a calculadora do celular, comecei a conversar com ele.

Oi, moço. Posso trocar umas palavrinhas com você? Legal. Você sabe ler? É mesmo, olha só, que bacana. E matemática? Ah, eu entendo, matemática é mais difícil mesmo. Mas olha, é o seguinte, acompanhe meu pensamento, por favor. Quantas pessoas entram aqui nesta agência a cada minuto? Vamos considerar o horário de funcionamento primeiro, das 10h às 16h. O quê, umas 10, pessoas, por aí, 15, 20? Bom, vamos considerar então uma média de 10, pra contar por baixo, tudo bem? Beleza, então vamos lá. Se em 5 minutos entram 10 pessoas na agência, em cada minuto entram 2 (comecei com a memória de cálculos no papelzinho). Se uma hora tem 60 minutos, a cada hora então entram 120 pessoas na agência. Se a agência funciona durante 6 horas, só no horário de funcionamento da agência ela é freqüentada por 720 pessoas. Bom, mas a agência abre para auto-atendimento às 6h e fecha às 22h, não é? Então, temos aí mais nove horas de funcionamento. Mas aí o movimento é mais baixo? É, eu imaginava mesmo, varia né? Então tá, como pegamos por baixo o outro valor, vamos colocar aí por um terço o número de pessoas por minuto, fazendo a média. Calma, eu vou chegar lá, você vai me entender. Continuando, temos então mais 9 horas, e mais 20 pessoas por hora – porque um terço de 60 é 20 –, o que nos dá então, além das 720 pessoas, mais 180 pessoas. Então, por dia, podemos tirar uma média de 900 pessoas na agência. Mas 900 é um número difícil, e como não estamos trabalhando com informações precisas, e pegamos tudo por baixo, vamos aumentar pra mil, porque fica redondinho, tá? Bom, agora vamos supor o seguinte: imaginemos que de cada 5 pessoas que passa pela agência, apenas uma te dá mais do que um real. Mas tem também aquelas “pão-duras” que te dão cinco, dez centavos só, não é? Pra fazer uma média, então, vamos considerar que 20% das pessoas te dão cinqüenta centavos. Isso significa 200 pessoas por dia, o que significaria 100 reais por dia. Se considerarmos apenas os dias da semana, durante o mês, são 20 dias. Se multiplicarmos 20 dias por 100 reais, chegamos em 2000 reais por mês. Ou seja, meu caro amigo, você ganha mais do que eu por mês. E aí, não tem uma esmolinha pra me dar não? Pode ficar com o papelzinho e guardar essas contas, que eu vou correr agora pro meu escritório, pedir demissão, e me juntar a você!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

didática

...ou como eu descobri que não sou didática

Quando eu era pequena, ao me perguntarem o que eu queria ser quando crescer, já metida a engraçadinha eu sempre respondia: “o que eu quero ser eu não sei, mas o que tenho certeza é que não quero ser professora!”. Isso era uma brincadeirinha sobre a profissão dos meus pais, ambos professores, sempre debatida e lastimada nos círculos de amigos deles, que era o ambiente que eu freqüentava.

Hoje, a questão para mim não é mais querer ou não, mesmo porque agora valorizo muito a “arte” – muito mais que profissão, ensinar é uma arte -, pela qual tenho muito gosto e admiração. A questão é aptidão. Sempre desconfiei que eu não fosse didática, mas conectando duas experiências recentes a fatos passados, concluí com toda clareza que realmente não sou.

Recentemente fiz um curso em que grande parte dos alunos era composta por “peões”. Isso foi para mim um sinal de que eu estava no lugar certo, porque era um forte indicativo da aplicação prática do curso. Mas não é isto que vem ao caso aqui.

Com o decorrer das aulas, fui ficando cada vez mais irritada com o professor. Ele era engraçado e simpático, parecia conhecer bastante o assunto e certamente deveria ser um ótimo instalador. Mas era absolutamente confuso quando se tratava de passar a informação, de ensinar. A primeira questão que reparei foi a sua fraca alocução. Seu português era sofrível, e a capacidade de comunicar ficava completamente comprometida por isto. Intrometida que sou, volta e meia me preocupava em reformular suas frases em forma de perguntas retóricas, ao que ele respondia afirmativamente ou concordava, e não foram raras as vezes em que ouvi a turma repetir em coro “aaaaaaaah! Agora sim!”. Tive que me esforçar para conter um ataque apoplético quando ele passou a primeira lista de exercícios. Linguisticamente, quase todas as questões eram contestáveis, ambíguas, o que permitiria diferentes resultados numéricos. Claro, o nível de português da maioria dos alunos da turma também não era dos melhores, mas o mínimo que cabe a um professor é comunicar bem e se fazer entender claramente.

Finda a parte teórica do curso, avançamos para a parte de cálculos e estimativas matemáticas, relativamente simples. Simples caso o nosso tutor não embaralhasse alhos com bugalhos, confundisse a obra de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras e desse um nó na cabecinha despreparada do perfil de alunos que compunha a turma. Se eu fosse exemplificar os absurdos, este relato não acabaria, e assim quem por acaso chegou até aqui não chegaria até o fim do texto.

Para alunos mais bem preparados, não era difícil identificar as “bolas fora” do professor, e acompanhar o raciocínio. Este é um dos motivos pelos quais meu pai sempre defendeu que seus filhos estudassem na UFMG. Segundo ele, o nível dos alunos é um fator de suma importância no desenvolvimento da turma (para ele, a forte concorrência para ingresso na UFMG acaba sendo um fator que melhora o nível dos alunos). Não era o caso desta nossa turma neste nosso curso. No começo, ainda tentei, com mais um ou dois colegas, continuar reformulando perguntas e questões para torná-las mais claras, mas por fim, vimos que teríamos que parar o curso das explicações se quiséssemos fazer isso sempre que necessário. Tive ímpetos de levantar, dar um sopapo na nuca do professor e tomar tanto o pincel atômico de sua mão como as rédeas da aula. Mas aí então me deu o estalo que me trouxe em flashes inúmeras vezes em que me peguei cometendo alguns dos mesmos erros e confusões do professor que rechaço aqui, dos mesmos erros e confusões que me deram ganas de estrangulá-lo.

É muito fácil pra mim, depois de entender todo o raciocínio e identificar as falhas na explanação de alguém, criticá-lo e reformular as formas de explicar o conceito. Entretanto, ao me perguntarem coisas sobre as quais tenho a maior clareza, vejo-me quase sempre, principalmente se pega de surpresa, fazendo confusões, esquecendo explicações simples e conceitos básicos e me perdendo num emaranhado de argumentos sem fundamento ou sentido para explicar algo bobo.

A experiência mais recente que tive disto, a título de exemplo, foi a revisão ortográfica e gramatical que fiz para uma dissertação de mestrado. A minha relação com a Língua Portuguesa é de fascínio, paixão e curiosidade, mas muito pautada na intuição. Ao fazer revisões (já admitindo para quem as contratou que não sou profissional da coisa, mas amante), em que geralmente o tempo é curto e o volume extenso, muitas vezes me acontece uma alienação – por exemplo, muita gente já reparou que, ao repetir inúmeras vezes uma palavra, ela começa a perder o sentido em nosso entendimento e assumir formas e sonoridades próprias. Há um curta-metragem muito bonitinho de um cineasta mineiro, Rafael Conde, chamado Françoise (protagonista interpretada pela também mineira Débora Falabela), que cita mais ou menos isto.
Mas, voltando à minha questão, quando me vejo assim, perdida e alienada na Língua, recorro às gramáticas, dicionários, comentários em sites confiáveis de internet, que quase sempre clarificam completamente a questão pra mim.

Tudo pronto, averiguado e preparado. Aí eu me reuno com o autor da dissertação e vou percorrendo com ele minhas correções e sugestões, e, ao me ver indagada sobre coisas para as quais não preparei explicações, respondo-as confusamente. Depois, com a cabeça no travesseiro, pensando sobre estas questões, percebo como havia maneiras muito mais claras de explicar aquilo que era pra mim tão óbvio, mas que eu não sabia dizer porque.

É claro que perceber isto já é um bom passo para aprimorar um processo didático, mas perguntas novas e surpreendentes sempre aparecem e são um desafio constante na vida de um professor que não tem a didática na ponta do cérebro.

Nestas horas, eu queria ter puxado esta veia de minha mãe. Qualquer peão aprende com ela. É uma questão de dom, o dom da didática.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

enquete

Clicando na imagem, a visualização fica melhor.
"mulher, em caso de dor, ponha gelo, mude o corte de cabelo (mude como o modelo!)"








sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

"efeito sanfona"

Às vezes, em restaurantes, algumas pessoas, pelos mais variados motivos – que nem sei quais são –, chamam agressivamente a minha atenção. Eu não consigo me desligar delas, observo-as, chego a ficar até inconveniente, não consigo deixar de olhar, reparar, perscrutar. Começo a imaginar o que está acontecendo em suas vidas, por que estão ali, naquela hora, o que se passa naquele momento. E então, para cada uma delas, teço um inevitável enredo mental. Chega a me dar agonia, às vezes.

Nestes dias de férias do Davi, sem a obrigação de levá-lo à escola e almoçar em casa, eu e o Gu temos ido almoçar fora de vez em quando. Volta e meia, vamos a um self-service japonês (o único tipo de self-service que o Gu aceita) que fica perto do escritório. Foi ele o cenário de uma das minhas últimas vítimas.

Estávamos nós dois almoçando e entra uma mulher no restaurante, sozinha. Era bonita, tipo loura fatal, mas um pouco acima do peso. Foi se servir, e, ao voltar, com um prato bastante generoso, principalmente com a parte calórica do restaurante oriental – a chinesa, o Gu, com sua língua ferina sempre afiada, logo soltou sua frasesinha “não é só Deus que mata, não, minha filha!”, claro, não pra ela ouvir. Pronto, mirei o alvo e toda a situação atual dela logo se desenhou em meu imaginário. Era a típica protagonista do “efeito sanfona” que estava atuando ali.

Ela estava usando um vestido da Elvira Matilde, uma das únicas marcas de roupa capazes de manter um gordinho elegante. Era certamente a única roupa de seu armário que ainda lhe servia, quando já tinha ganhado uns quilinhos depois de uma daquelas super dietas que a transforma na grande gostosa de qualquer pedaço, e, como sempre, sem conseguir manter o sucesso por muito tempo, ela resolve chutar o balde.

Sozinha, sem ninguém para obrigá-la a fazer de conta que estava mantendo a linha, permitiu-se todo o prazer da gulodice, mas claro, com uma folha de alface no canto do prato e uma Coca-Cola “Zero” para acompanhar, servindo de álibis para sua escapulida, além de mitigar o peso, no caso, só da consciência, porque venhamos e convenhamos, em situações assim, não é o refrigerante não-dietético que seria o vilão. Comeu rápido, com voracidade e uma sensação de prazer inenarrável.

Finda a lauta refeição, ela volta do caixa com não uma, mas duas daquelas terríveis bananas carameladas que eu não consigo entender como fazem tanto sucesso, que restaurantes orientais sempre dão de brinde. Saiu lambuzando-se como se nunca tivesse comido melado, e, talvez por notar um ou outro olhar reprovador (juro que nenhum deles foi meu), deu uma rebolada, arrumou o cabelo com as costas da mão (claro, os dedos estavam grudados de açúcar derretido), e foi embora como se o prazer que estava sentindo na infração calórica valesse mais do que não ser tão gostosa quanto aquela banana.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

"famigerado"

Sim, entre aspas. O título é de um texto do Guimarães Rosa. Mas eu era fascinada por este texto antes até de saber o quanto o Guimarães Rosa era famigerado.

Sempre fui fascinada por leitura e produção de textos, mas nem sempre fui muito bem informada, principalmente antes da intimidade com a Internet. A primeira vez que fui ler Guimarães conscientemente foi quando ganhei no Natal de 1999, ou 2000 (não me lembro), de meu Tio Julio, o maravilhoso Sagarana. Talvez por isso eu tenha demorado até esta semana para descobrir que o texto que eu só havia lido uma vez e tinha tão claro na memória era do Guimarães.

Enfim, esta palavra, "famigerado", me acompanha desde que li esse texto pela primeira vez, há mais de dez anos, quando uma professora de Literatura no colégio o deu aos alunos para uma de suas aulas. Lembro do formato da impressão do texto, lembrava claramente da história, mas acho que até então, eu não tinha em tanta consideração quem o tinha escrito (nem background para identificar estilos individuais), mas o escrito em si.

Desde então, eu vivia a espremer a memória procurando o autor, mas nunca com afinco o suficiente. Estes dias estava a me deleitar com o domingopelamanha.blogspot.com - um blog de que fiquei sabendo faz pouco, e pelo qual me interessei muito -, e num dos posts aparece uma ótima contextualização da palavra famigerado. Não quis deixar de citar o texto em meu comentário, mas para isso, resolvi então buscar seu autor. Procurei por "famigerado Sabino", imaginando que talvez fosse dele o texto, e logo achei, em uma bibliografia de um vestibular, junto com um texto do Sabino, este "famigerado" sobre o qual escrevo agora, devidamente creditado. Para poupar quem quiser de buscá-lo, ei-lo aqui, dignissímo!

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FAMIGERADO
(Guimarães Rosa)

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.

Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:

"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."

Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."

Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."

Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:

— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.
— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

— Famigerado?

— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.

— Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"

— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...

— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"

— Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...

— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:

— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...

— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.
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Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, já dizia o ditado. Então, perdoada, cito a fonte:
http://www.releituras.com/guimarosa_menu.asp, onde eles dizem, e eu reitero:
"Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 13, cuja compra recomendamos."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

toda embriaguez será castigada

Tem gente que bebe. Tem gente que fala demais. Tem gente que fica sem graça. Tem gente que mexe no que não deve e tem gente que emenda o irremediável.

Sábios os ditados que dizem "a emenda é pior que o soneto", ou "bosta, quanto mais mexe, mais fede". Pior que tem gente que sempre acaba mexendo ainda mais no estrume, e pondo mais estrofe na emenda do soneto...

Tem gente que é dose. Tem gente que é fogo.

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Desculpa, Manel, nem foi plágio retroativo... Foi explícito mesmo, mas só o título!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

8 reais e muita raiva

Clicando na imagem, a leitura do texto fica bem mais fácil.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

"Os outros", pobrezinhos...

Um dia desses eu me surpreendi bastante com a agudeza da observação que um alemão me deu para a famigerada "Lei de Gerson", brasileira.

Estava eu com uns amigos num show, na Praça da Estação, e conheci então o sei-lá-como-escreve-o-nome, mas cuja tradução para o português, segundo ele, seria Floriano. Travamos uma conversa amistosa que, fatalmente, cairia no assunto “Brasil”. Imagino que todo estrangeiro, ao conhecer um brasileiro, já deva ficar de prontidão esperando o assunto surgir, muitas vezes até de mal grado, dada a sua repetição. Ainda bem que o Floriano, que até traduziu o próprio nome, parecia não se incomodar em falar sobre o Brasil mais uma enésima vez, considerando-se que ele tem vários anos na terrinha, e até me pareceu um apaixonado por ela.

Não lembro exatamente por que cargas d’água nós concluímos que todo mundo no Brasil diz “foda-se”. Pra tudo e pra todos. Só se olha o próprio umbigo. Claro, fiz certas defesas, “não às generalizações”, patati, patatá, e ele, afinal, pareceu-me mesmo um declarado apaixonado, nem precisei ser tão veemente assim em minhas defesas. Mas, num determinado momento, depois de muito enaltecermos minha pátria amada idolatrada salve salve e seu povo, passamos à sua depreciação.

Ele então me disse que o que mais exemplificava essa conduta brasileira do descaso com o “outro” eram os banheiros. O exemplo máximo e mais preciso. Não preciso enumerar aqui as características dos banheiros que ele me enumerou. Um mamute de presente na bacia sanitária é o de menos... Todos nós, brasileiros, pelo menos nós que corajosamente, ou inevitavelmente, usamos banheiros fora de casa (e olha que ele chegou a me falar inclusive de banheiros de “casas” onde ele morou com amigos), sabemos em que estado os encontramos ao usá-los depois de outros. E eis aí, então, a filosofia tupiniquim: eu já usei, que se foda o próximo. Não há, na grande parte dos casos, uma preocupação em cuidar do espaço para o “outro”. Não há, na grande parte dos casos, nenhuma preocupação com relação ao “outro”. Não é um caso exato de "Lei de Gerson", de tirar vantagem, mas não deixa de se enquadrar no descaso brasileiro. Concordei com ele.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

admirável mundo novo

Descobri há dois dias um desses blogs de downloads (no caso, de músicas) de que todo bom PIMB'a sempre sabe... Minha experiência com blogs, até então, vinha sendo bastante curta, só mesmo blogs de pessoas que, como eu, vêem no ato de escrever um deleite, ou seja lá o que for, e que me prazem ler. Blogs que me foram indicados ou que descobri ao pesquisar qualquer coisa na internet e acabar achando, como é o caso do Cacofonia, que consta aqui em meus links.

Enfim. Estava Paulinha de passagem aqui no escritório para nos visitar, e para minha raiva, ela indicou tal blog pro Gu antes de indicar pra mim. Como assim? Eu, que sou muito mais maníaca com música, que não vivo sem música, que bibibi e bobobó, sou apresentada ao fantástico mundo dos downloads de álbuns de quase tudo em MPB depois do Gu??? Ai que raiva!

Enfim, resmunguices à parte, a marinheira de primeira viagem aqui anda tendo sensações orgásticas com tamanha generosidade de fulano, sicrano, uáréver seja quem for o bom coração que publicou este incrível umquetenha.blogspot.com com tantos e tantos maravilhosos álbuns de MPB, que muito mais do que música popular brasileira, é música recôndita brasileira, difícil de encontrar, mas que está lá...

Ontem, por exemplo, estava eu feliz da vida em meu mais novo possante, que desta vez veio equipado com um super som (e que eu rezo para que dure um tempinho bom antes de ser roubado, porque tou cansada de ter as coisas roubadas) ouvindo o "Bazar Maravilha", quando o Tuty me presentou com duas das maravilhosas gravações do Chico que a Mônica Salmaso fez em seu novo álbum, Noites de Gala, Samba na Rua, e qual não foi minha surpresa ao vê-lo inteirinho e disponível lá?

Confiram!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Minha vida matutina: subir Carangola, descer Leopoldina

Dá-lhe Carangola a pé, morro acima
Pego o carro do Gu, desço a Leopoldina
- (vou cuidar das obras)
Nem é sempre assim, mas eu não queria perder a rima...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O casamento, na visão de José Guilherme de Orleans e Bragança

Quando um cara, logo no primeiro mês de casado, chega em casa e encontra vários petiscos na mesa, latinhas de cerveja geladíssima na geladeira e cinco mulheres incríveis em sua cama, ele não pode deixar de concluir que o casamento promete! Não pôde, inclusive, se furtar a fotografar a parte mais interessante da surpresa...

Para D e Zé, meu lindo casal de afilhados.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Is there life before coffee?


O famigerado orkut, apesar de toda a justificável resistência por parte de muitas das pessoas que tenho na mais alta conta, é bastante divertido quando levamos em consideração as comunidades. Pra mim, e acredito que também pra grande parte das pessoas conectadas por esse “site de relacionamentos”, as comunidades não passam de máximas, axiomas, slogans que caracterizam um pensamento, ponto de vista, uma atitude, enfim, uma série de pontos com os quais estão todos os participantes de acordo. Para os mais desocupados, claro, não deixam de ser um bom fórum de discussão para o que quer que seja o assunto que abordam. Essa idéia de poder concatenar em um só lugar várias frases que resumem um universo enorme de idéias pessoais me faz associar as “comunidades orkutianas” a uma espécie de caricatura do pensamento. Ainda vou bolar algum apetrecho decorativo com essa idéia...

Bolas à parte, uma das várias coisas que adoro fazer nos raros momentos ociosos é fuçar as comunidades de pessoas, principalmente daquelas que tenho em alta conta mas que não resistiram ao orkut, para desenhar no imaginário essa caricatura. E, além disso, para furtar uma ou outra comunidade que caracteriza de alguma forma o meu pensamento também. Agora, enfim, começo a chegar ao cerne deste post, que explicará sua imagem e o título.

Num desses meus momentos de ócio, fuçando as comunidades daquele mesmo PIMB'a nato do qual falei no sobre café e música, eu achei a comunidade que dá título a este post. Claro, logo a surrupiei pra minha lista, por total identificação (que digam quem me vê sempre ao lado da minha garrafinha de café no escritório). Hoje, ao pesquisar algumas imagens pra figurar no modelo de um projeto do escritório, achei esta que postei aqui. Conectando o tico e o teco, resolvi então fazer uma singela homenagenzinha (pequena mesmo, hein?!) ao Rodrigo só pra demonstrar "no regrets" quanto ao relato do sobre café e música, que é, também, uma recompensa pelos não menos singelos furtos que fiz após analisar as comunidades desse amigo querido que, além de ouvir - e ainda comentar e me aconselhar! - minhas etéreas e eternas baboseiras pelas vias virtuais, ainda tem uma ótima caricatura orkutiana do pensamento. A imagem é a recompensa, porque, apreciador das boas coisas como sei que é o Bigo, estou certa de que ele gostará, e o título, assim como o post, minha singela-homenagenzinha-pequena-mesmo-hein.

Obs.: Bigo, para os íntimos, dentre outros apelidos que, pode deixar, queridão, não vou contar aqui! :-p

Na cidade sem meu carro (PQP!)

Além de todas as atribuições que o dia 21 de setembro tem para o mundo e pra mim, de uns tempos pra cá a data ainda ganhou a marca de ser o dia internacional de ficar “na cidade sem meu carro”.

Dada a coincidência de ter meu carro furtado exatamente na véspera de tão importante e significativa data da consciência mundial, eu penso então em como foram conscienciosos os ladrões que furtaram minha querida saveirinho, motor AP, carburada, pau pra toda obra, linda e meu orgulho.

Esses ladrões (que o diabo os carregue para o quinto dos infernos) certamente não pensaram no trabalho enorme que tivemos eu e meu pai para encontrá-la, não pensaram no quanto um carro, principalmente um carro como minha saveiro, é fundamental na vida de um arquiteto que trabalha com obras, nem pensaram também em como estaria o movimento no baixo meretrício onde trabalham suas mães.

Certamente, eles consideraram a importância da campanha internacional de se ficar sem carro por um dia e resolveram me escolher para protagonizá-la, mártir deste mal, estendendo o período de um dia para vários, longos, árduos e tenebrosos dias que correrão até que toda a dor de cabeça dos trâmites de seguradora, procura e compra de um outro carro, grana com toda a documentação, mil reboladas pra me virar no trabalho sem carro e etc, etc, etc decorram.

Bastardos filhos de uma égua esses ladrões conscienciosos.

sábado, 28 de julho de 2007

sobre café e música


ô gente, desta viagem para Brasília renderão bons textos... Mas quero elaborá-los bem, pois merecem...

Sem que importe tanto a cidade (apesar de que bastante), memoráveis foram as pérolas desta tarde de hoje em que ficamos eu, Paulinha e Rodrigo no ap "de abate" dele, jogando conversa fora e ouvindo trance... Depois eu digo sobre esta experiência antropológica que foi ser aplicada à música eletrônica por Bigo e Paulinha, duas das pessoas que tenho na mais alta conta quanto ao quesito "musical"...

Agora, vou me ater às gafes: Bigo, um PIMB'a nato, se dispôs a nos fazer café. Depois da sua segunda tentativa frustrada na mais complexa experiência de se fazer um café, e depois de eu ter conseguido fazê-lo consertar a catástrofe, eu, metida a besta, pseudo-intelectual, pessoa cuja língua não cabe na boca, vim com um "olha... eu bebo muito café, sabe... mas, assim, pode ser um pouco de metidez a bestisse, mas eu entendo do assunto... tem um café, um tal de "fulano de tal" que é assim, digamos muito bom, se você usasse ele, Bigo..."... Nisto, Rodrigo, no mais puro deleite, regozijando-se, fala: "por acaso não seria e-xa-ta-men-te este o café que você está experimentando agora, sua entendida de meia-tigela! Cala a boca, bárbara!!!"... Hahaha, foi péssimo, qualquer emenda que eu fizesse soaria pior que o soneto, mas, eu juro, ainda tentei afirmar que a culpa de eu não ter reconhecido o tal café era a má habilidade dele em fazê-lo....

Bom, vamos para a sala, muito depois do café, já nas boas cervejas "extras" e vodka com vermute (ou eu sei lá, pra mim era martini), e passamos à pimbíssima discussão musical... Então, Paulinha, para não ficar pra trás, ao ouvirmos certa remixagem musical, diz, num tom de deboche: "não é possível que você não conhece essa música do New Order"... Então, Bigo, para seu maior deleite ainda, fala: "mesmo porque esta música é do Depeche Mode"....

Paulinha entende tanto de música eletrônica quanto eu de café!

Agora estamos as duas de brucutu pra pegar uma mancada do Rodrigo, que é pra ele não sair ileso dessa!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

mas ela é maior e vacinada...

Sempre achamos uma música que nos encarapuça super bem… Todo mundo tem a sua.

Lá em casa, sempre foi dito que o Chico, quando escreveu o refrão “cala a boca Bárbara”, escreveu pro Gu cantar pra mim. Era um coelho numa cajadada só; uma música pros dois filhos… Mas o Gu há tempos, além de me mandar calar a boca inúmeras vezes, adotou outra estrofe prá me definir.

Segundo ele, eu vivo intensamente…
Me racho e me estrepo, mas vivo intensamente…
Sei que depois da narrativa de cada uma das minhas presepadas, ele sempre solta aquela risada irônica e me canta:

“Saiu só com a roupa do corpo
Num toró danado
Foi pros cafundó-do-Judas
Apanhou um resfriado
Voltou com a blusa rasgada
Entrou, não disse nada
Tô com dor-de-cotovelo
E com a cabeça inchada
É de amargar, é de amargar...Mas ela é maior e vacinada…”

quinta-feira, 5 de julho de 2007

i don't want to stay here, i wanna to go back to bahia...

Pois sim... 2001 ou 2002, já não me lembro, trabalhávamos eu, Ju e Gu Brasileiro no escritório da Silke como estagiários...

Nesta época, estávamos trabalhando num projeto bacanérrimo dum cara mais bacana ainda ($), num condomínio numa praia paradisíaca na Bahia, outeiro da vila, vila do outeiro, sei lá... Lugar mais bacana que o projeto e que o dono do projeto.

Enfim, um belo dia, eu tinha me esmerado na maquete da casa, junto com Gu, e a Ju estava no Cad... Então, temos uma grata surpresa! Silke nos chama e diz para desmarcarmos tudo que tínhamos pra fazer numa quinta-feira qualquer, duma semana qualquer, pois iríamos visitar o "terreno", levar a maquete, fazer um estudo de insolação... Coisa normal pra projetos... MAS NÃO NA BAHIA!

Às sete horas da manhã dessa quinta-feira que entrou pra história fomos nós então (mas, tadinho do Gu Brasileiro... ficou de fora...), eu e Ju, as estagiárias, para o aeroporto da Pampulha, onde subimos num jatinho sensacional, desses de filme mesmo (e qual não seria?), para, 1 hora e meia depois, descermos numa pista no meio do mato, entrarmos numa Landrover e irmos parar no paraíso... Eu achei realmente que tinha morrido e ido pro céu!

Em pouco tempo já tínhamos cumprido nosso "árduo dever" e estávamos num restaurante com um gramado a 3 ou 4 metros da praia mais azul do mundo, onde havia esteiras e almofadas de chita espalhadas pelo chão, sucos de todos os sabores, comidas com aquele tempero da beira da praia e a única vivalma era um artista global... Enquanto o almoço só estava no cheiro (hummmmm), fomos amargar o fato de estarmos perdendo a deliciosa aula de "conforto acústico" dentro do mar, na marola das ondas, na maciota...

Às cinco da tarde, num pôr de sol dum dia lindo, subimos novamente no "nosso" jatinho particular e cruzamos um céu sem uma única nuvem... As sete já estávamos na Sergipão, a sala de reunião do escritório do Gu (brasileiro só da pátria, mas Fonseca do nome, meu irmão) na época do Funcionários, matando ele e seus então sócios de inveja com nossos chinelos sujos de areia da Bahia de apenas um dia...

Essa história tinha que constar no caderninho! Foi sensacional!

quarta-feira, 20 de junho de 2007

laranjas e idéias (4) ... gooooood times BH fm...

Bem no estilinho da discussão bloguística iniciada no primeiro "laranjas e idéias", coloco aqui uma frasesinha linda (e assaz piegas) do Mário Quintana (que - pena - ficou tão vulgarizado nos pps da vida!)...

"O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores"

quarta-feira, 6 de junho de 2007

PIMBa's

PIMBa é uma dessas brilhantes siglas que alguém, de quem agora eu não consigo me lembrar, criou para definir um tipinho de gente que é muito fácil de se encontrar, principalmente nos meios acadêmicos, universitários e ligados à área das ciências sociais aplicadas ou design, que são os "pseudo-intelectuais metidos a besta". No meio arquitetônico, então, há pás e pás de PIMBa's.

Eles são facilmente identificáveis no quesito estético. Os PIMBa's são quase invariavelmente muito bonitos, mas é comum observar alguns exemplares usando esse estereótipo para disfarçar sua feiúra. Na verdade, eles procuram sempre ser não-estereotipados, mas esse é justamente seu estereótipo. Estão sempre vestidos com roupas pseudo-velhas, meticulosamente mal arrumadas e calçando tênis, que, a princípio, eram Adidas, mas a Nike e a Puma sacaram esse estilinho "despojado" e logo arrumaram designers PIMBa’s para desenhar modelitos PIMBa's e atender à crescente demanda. As camisetas sempre têm uma estampa pseudo-bacana (a Cavalera fez rios de dinheiro com os PIMBa's, antes de se tornar estampa de camisa de motoboy). Ainda se encontram alguns PIMBa’s com piercings, mas, em grande parte deles, é comum agora encontrar apenas os furos, pois, para se manterem inovadores, passaram a tirar seus piercings, que deixaram de ser inovação.

Em cinco minutos de conversa (caso um não-PIMBa consiga essa dádiva de sua preciosa atenção) também é fácil identificar a classe. São sempre muito arrogantes, críticos e seletivos, e quando abrem uma exceção em sua hermeticidade, abrem-na apenas para garantir uma boa diversão com suas sempre muito ácidas, sarcásticas e, para não fugir à regra, herméticas piadas – seu senso de humor também é uma maneira de caracterizá-los. É claro que se você for uma gata, loura, burra e gostosa, você sempre será bem vinda no meio, até que um dos PIMBa’s te coma e os outros façam questão de exaltar sua burrice, por pura dor de cotovelo.

Os PIMBa's são sempre do contra, a não ser que a maioria também o seja, quando então se colocam a favor apenas para continuarem a ser do contra. São exímios construtores de argumentos furados, mas extremamente persuasivos, e extremamente sensíveis a derrotas em discussões, prolongando-as às vezes até nenhum deles conseguir mais sustentá-las.

Muitas vezes nem são pseudo, são inclusive muito inteligentes, mas, até por isso mesmo, são sempre metidérrimos à besta. Acham-se o máximo quando sabem de algo que alguém não sabe, sobre qualquer assunto (mas principalmente design, música, cinema “cult”, literatura e downloads) e, ao ouvir qualquer novidade sobre alguma coisa que não conhecem, sorvem qualquer dica para aproveitá-la na conversa depois e poderem participar então como se fossem doutores no assunto, ou para poderem criticá-la ao máximo e dizer que, por ser tão ruim, eles nem se deram ao trabalho de saber o que era.

Os PIMBa's belorizontinos amam São Paulo. Sempre falam de São Paulo, estudam São Paulo, copiam São Paulo e, caso não possam se mudar para São Paulo, aprendem tudo sobre São Paulo para poder esbanjar seu chá de PIMBalisse paulista com os outros PIMBa's da roça que ainda não se atualizaram.

Encontram-se PIMBa’s nas boates “underground” que tocam músicas que eles sabem no primeiro acorde classificar como uma das centenas de estilos musicais que eles conhecem a fundo. Também são bastante encontráveis nas livrarias-cafeterias, apesar de que, depois delas terem virado moda, eles procuram lugares menos “óbvios”.

A não ser que um “grão-mestre PIMBa” defina aquele lugar da moda como ponto de encontro e decida que “agora, como é comum evitar lugar da moda, nós então vamos freqüentá-los”.

E, se bobeou, a gente PIMBa!


(imagem surrupiada do http://depositodocalvin.blogspot.com/)

quinta-feira, 31 de maio de 2007

a arte de conviver bem

Belo Horizonte, 30 de fevereiro de mil novecentos e cafunga

Prezados condôminos,

Esta comunicação que vos envio trata de um assunto bastante constrangedor e escatológico, mas depois de discuti-lo em reuniões extra-oficiais com alguns condônimos, resolvi mandá-la.

A delicada questão é a seguinte: há algum de nós que usamos o banheiro do andar de baixo do complexo onde temos nossos escritórios que deve estar com algum problema sério de prisão de ventre ou algo parecido, porque o volume e consistência de suas fezes têm entupido periodicamente o vaso sanitário.

Essa situação está começando a ficar desconfortável, porque já pela nona ou décima vez, não sei, tive que interromper minhas atividades e recorrer a um método para desentupir o banheiro (que explicarei num post scriptum no fim desta comunicação, para que todos possamos ajudar a manter o banheiro em condições de uso, seja próprio ou de algum eventual cliente).

Sugiro, então, para seja quem for que esteja com esse problema de escapamento, que coma bastante mamão pela manhã (sugestão enviada por um de nossos condôminos, que já passou por este problema), ou procure saber de outros métodos laxativos, e assim possa evacuar com mais freqüência, e, conseqüentemente, dividir o famigerado montante em parcelas menos prejudiciais ao bom uso do banheiro.

Sem mais para o momento, agradeço vossa atenção e reitero a necessidade de mantermos as mínimas condições que sempre garantiram a boa convivência no usufruto de nosso condomínio.

Atenciosamente,

O síndico
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P.S.: para desentupir o vaso quando ele estiver obstruído, proceda da seguinte maneira:
1. lave e seque bem as mãos;
2. calce as luvas de borracha amarelas que estão dentro do box;
3. pegue dois panos velhos, umedeça bastante e coloque sobre todo o perímetro da bacia sanitária, com a tampa levantada;
4. feche a tampa, coloque as duas tábuas de compensado que estão dentro do box em cima da bacia sanitária e suba nas tábuas, de maneira a pressionar bastante a tampa para que não haja nenhum lugar por onde possa sair a água contida no vaso;
5. Dê descarga seguidas vezes, até encher completamente o vaso, para que, não tendo mais por onde sair, a pressão de água leve embora todo o obstáculo que entupia o fluxo. Quando da desobstrução, ouvir-se-á o barulho característico do fluxo normal e corrente;
6. enxágüe e torça os panos no tanque e os coloque num balde com um pouco de desinfetante;
7. lave as mãos, ainda com as luvas, com bastante sabão e um pouco de desinfetante, enxágüe e pendure novamente no box.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

um testemunho vale mais que mil argumentos

Sabadão, almoço de família, por comemoração da Primeira Comunhão da minha priminha raspa de tacho Rachel, filha da Tia Silvinha, minha madrinha.

Um almoço do barulho, diga-se de passagem... Um tanto de tio, um tanto de tia, primos, sobrinhos, netos, sobrinhos-netos, a cadelinha e os 4 filhotinhos da cadelinha, o gato, vários agregados, filhos de agregados, o papagaio (mentira, que não tem papagaio na casa, mas era só o que faltava) e todo mundo falando pelos cotovelos.

Depois de suas de-uns-tempos-pra-cá costumeiras cachacinhas, o tio Julio, ao meu lado e ao lado do Ricardo (o agregado-genro-cozinheiro da casa) observa essa farra e comenta, numa mistura de orgulho e saudosismo do agora, que a nossa geração (minha e do seu genro, que no momento estávamos na conversa) não viverá mais essa situação de muitas pessoas numa comemoração de família, pois as famílias estão ficando cada vez menores.

Sim, claro, concordamos. No entanto, dissemos nós, está ficando cada vez mais comum a situação "agregado"... Ou seja, as amizades estão preenchendo lacunas (claro, insubstituíveis, mas perfeitamente complementáveis) nas reuniões íntimas. Ah, pra quê fomos falar isso...?! A discussão começou a virar um rebuliço completo, e o Tio Julio, fomentador como ele só de polêmicas, começou então a discutir "o valor das amizades no mundo moderno", que nada será como antes, que não se fazem mais amigos como antigamente, que nós jamais teremos amigos que participam da nossa vida como os amigos da geração dele o fazem e vice-versa, que patati, patatá...

Eu, e minha enorme língua que não consegue ficar guardada dentro da boca, ainda tentei contra-argumentar, tendo em mente inclusive o relato do meu último post, buteco virtual: "mas tio, nós (a minha geração) estamos vivendo a revolução dos meios de comunicação...", mas não deu tempo nem deu completar o blablablá, porque, ao ouvir a palavra "revolução", meu tio Julio se ouriçou todo, levantou o braço com o dedo apontado, numa atitude que lhe é bem característica, e disse, numa entonação apaixonada, que "a revolução quem viveu fomos nós!" e dá-lhe mais patati patatá...

Sei que depois de horas a fio de ânimos completamente exaltados e um milhão de argumentos para dizer do valor das verdadeiras amizades, a tia Silvinha chega na discussão e, com aquele ar de quem conhece bem o marido que tem, deu uma tsc tscada e disse "qualé, bem, e o fulano, que ocê nem nunca mais viu e sempre dizia que era seu melhor amigo, amigo pra vida toda... Deixa de onda"...

Durante uns dois segundos, Tio Julio mete o rabinho entre as pernas e sorri um sorriso amarelinho, já que toda a sua argumentação tinha ido por água abaixo... Mas, não se dando por vencido, ele incorpora então novamente o espírito da conversa e diz: “esta é a beleza de ser jovem: vive-se de utopias!”...

Claro, a conversa rendeu muito mais que isso, mas minhas opiniões sobre parte disso tudo vão pra um próximo post...

domingo, 20 de maio de 2007

buteco virtual

Apesar de estarmos completamente surrounded pela tecnologia das comunicações, às vezes eu ainda consigo me surpreender com as possibilidades que seu avanço nos proporciona.

Um dia eu estava conversando com a Paulinha via skype, e ela, com a webcam ligada, abriu uma cerveja enquanto conversávamos e me fez a maior inveja, porque a conversa estava ótima e eu não tinha cerveja...

Enfim, sentindo a imensa falta que sempre sinto de sair pra tomar uma cervejinha e jogar conversa fora com a Paulinha, nós combinamos então de marcar um "boteco virtual"; abastecer-nos-íamos ambas de cerveja, microfone e webcam, e passaríamos horas jogando conversa fora... Dito e feito! Qual foi nossa surpresa então, quando, como se estivéssemos no boteco da esquina, aparece-nos do nada nosso também muito querido amigo Gustavo Brasileiro no skype!

Ficamos então eu aqui na minha beozonti, Paulinha em Brasília e Gustavo em Nova Iorque, batendo altos papos e tomando aquela cervejinha gelada até que o primeiro disse "é, o papo tá bão, mas a cerveja já tá fazendo efeito e acho que tá na hora de ir...."... Ir? Pra onde? Estávamos todos em casa!

Claro, jamais se substitui o contato físico, os olhos, as expressões, os gestos, o calor humano... Mas na impossibilidade de ir ali em Brasília ou dar um pulinho em Nova Iorque, que bom que foi!

sábado, 19 de maio de 2007

sutilezas cinematográficas

Apesar de não saber nada sobre direção cinematográfica, pra mim, que adoro minúcias, há pequeníssimos detalhes que caracterizam grandes sacadas de direção nos filmes... Há várias sutilezas dessas que me fazem tirar o chapéu para os respectivos diretores.

Uma delas está numa cena do filme "Moça com brinco de pérola (Girl with a Pearl Earring)", quando o pintor (Colin Firth) pede para a personagem da Scarlett Johansson umedecer os lábios. Ela faz um papel absolutamente puritano, pudico, e a sacada está no fato de que ela umedece os lábios sem que apareça um milímetro de sua língua; é uma cena super tensa, mas linda.

Outro detalhe pequeno que é excelente pra mim (mas, nesse caso, acho que sou realmente aficionada por minúcias), é quando o personagem do Charlton Heston (no filme “Ben-Hur”), ao dar a liberdade para sua escrava – por quem ele era apaixonado – como presente de seu noivado com outro cara, pega de volta seu anel de escrava e diz que irá usá-lo até se casar... Enquanto ele fala isso, ele não coloca o anel já no dedo em que servirá, mas, quase imperceptivelmente, testa o anel nos dedos até decidir por colocá-lo no mindinho; é um detalhico que confere uma naturalidade e veracidade à cena que fazem com que ela fique sublime.

Há outras situações em que as minúcias me deleitam, mas, sem sombra de dúvidas, é no cinema que as observo mais... No entanto, claro, deixo passar várias... Se há alguém por aí que também as repara, me dá um toque aí, pra eu aumentar meu vocabulário de sutilezas cinematográficas!

sexta-feira, 18 de maio de 2007

laranjas e idéias (3) ... macacos me mordam!

Um belo dia eu chego no escritório e, junto dos meus milhões de papilinhos pregados em todos os lugares da minha baia, estava um novo, em destaque, recorte de alguma revista, de uma agenda (daquelas que têm um pensamento todos os dias) ou sei lá de onde, que dizia:

"As idéias são como pulgas, saltam de uns para outros, mas não mordem a todos." (George Bernard Shaw)

Claro, sabendo da minha discussão bloguística sobre difusão de idéias, e tendo participado inclusive de sua produção, foi o Luiz Gazzi quem deixou pra mim...

Enfim, só mais uma frasesinha sobre as idéias... Oxalá as boas sempre me mordam!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

hábitos e nomes

Uma vez minha mãe me falou que se fosse pra voltar atrás, ela me daria outro nome...
Se chamando Bárbara, eu vivo sempre no bar, quem sabe chamando Lara eu viveria mais no lar?

segunda-feira, 14 de maio de 2007

[im]pessoal

eu não sou; eu interpreto...
eu não me visto; me caracterizo...
eu não crio; eu adapto...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

o assalto

Por incresça que parível (e isso não foi só pra lembrar o post "trocadáveis adorilhos" não, sério!... é porque esse é realmente um trocadilho que eu - além da mamãe - sempre uso), este caso que vou contar aqui é verídico de verdade (por mais pleonástica que essa expressão seja...)!

O caso é de uma amiga da mamãe, que foi diretora do Pitágoras, Regina, para dizer o milagre e dar nome ao santo... Claro que quem conta um conto aumenta um ponto, e a história não será então ipsis litteris a mesma da Regina, mas lá vai...

A Regina, na época diretora do Pitágoras da Timbiras (mas não sei quando foi isso), chiquérrima, tinha um relógio super bacana, folheado a ouro e tudo e tal, que foi presente dos seus 25 anos de casada. Apesar de chiquérrima, ela não é burguesinha, e não se aperta quando tem que pegar um ônibus... Enfim, um belo dia, pega ela um ônibus pra ir sei lá onde, toda arrumada, como lhe é de costume, com suas blusas de seda e mangas bufantes, e, pra variar (em Belo Horizonte) o ônibus estava completamente lotado. Ao lado dela estava um cara super mal encarado, grandalhão, todo mal vestido, e, claro, com o desodorante vencido há muito tempo.

Num determinado momento, ela se dá conta de que seu relógio desapareceu. Na hora, sem nem pestanejar, ela deduziu que o grandalhão mal encarado tinha surrupiado gatunamente seu precioso presente de bodas de prata. Controlando o desespero, na maior frieza do mundo, ela abriu a bolsa e sussurrou pra tal figura:

_ o senhor me faça o favor de colocar o relógio aqui dentro imediatamente, ou eu farei um escândalo.

Também sem nem pestanejar, o cara colocou silenciosamente o relógio dentro da bolsa e ela, suando frio, deu o sinal para descer e pulou no primeiro ponto, sabe-se lá onde. No que ela desce do ônibus, escorrega de dentro da manga bufante da blusa o bendito do relógio folheado a ouro! Completamente estupefata, ela abre a bolsa e descobre lá dentro o relógio do pobre do grandalhão nauseabundo que ela tinha acabado de assaltar!

a bossa do cigarro

Lançando mão de toda a sinceridade que eu disse que não usaria no meu estreante post "vai ser sério assim no inferno", o título deste post era pra ser "a bosta do cigarro"... Mas um palavrão logo no título pedia um eufemismo, e "bossa" veio bem a calhar (apesar de palavrões sempre constarem no meu vocabulário...).

Mas o cigarro, apesar da proliferação de anti-tabagistas estar conseguindo dizimar isso (o que devo considerar como algo muito bom), tem realmente uma bossa, um charme, um quê de qualquer coisa instigante, pra quem fuma, claro... Lembro dum dia que li um texto do Luís Fernando Veríssimo, acho que nalguma das crônicas do Analista de Bagé, falando sobre a total e completa impossibilidade de parar de fumar depois de sair do cinema e ter visto o Humphrey Bogart dar uma baforada que "enche até o rabo", soltar a fumaça deliciosamente e dizer, acho que pra Ingrid Bergman, "I want you, kid!". Realmente, nessa hora, dá vontade de acender um cigarro no exato instante...

Taí a bosta do cigarro: não comece, porque, fatalmente, quem começou vai uma hora ter que sofrer pra parar, ou sofrer por não conseguir parar... Pior que o cigarro muitas vezes acaba se tornando uma bengala, um amuleto pro viciado. Lembro do meu pai, que há mais de vinte anos parou de fumar, dizer que nunca mais se sentiu o mesmo homem depois que parou de fumar... Diz minha mãe que já chegou em casa e encontrou meu pai em profunda depressão, meio desespero mesmo, porque simplesmente queria fumar um cigarro... Mas o cara fumava três maços de Minister por dia... Aí também!... E diz ele que até hoje tem vontade de fumar, e que parou porque é "fraco", porque sabe que se acender um, volta aos três maços... Claro, há casos e casos. Esses dias li um texto excelente na Folha, duma psicanalista, acho que Ana sei-lá-o-quê Mautner (será que é parenta do Jorge?), dizendo que as pessoas mais propensas ao vício são aquelas que precisam de recompensa imediata. E a recompensa de qualquer vício vem no ato mesmo... Ô bosta, sô!

E quando um fumante vai paquerar? Claro, mil paqueras começam com o famoso “você tem fogo?”; eu já caí nessa (mais engraçado que foi quando ainda não fumava.)... Mas prum fumante achar um não-fumante que tope um beijinho sabor tabaco, haja qualidade! Dureza, né não?

quarta-feira, 9 de maio de 2007

furreca

Quem de nós, crianças e adolescentes nos anos oitenta, não sonhou com um golzinho GTI ou GTS (quase tanto quanto sonhávamos com aqueles Escorts XR3 conversíveis), cheios dos apetrechos, lindos, vidros fumê, aerofólio, um show! Todos nós sabíamos de alguém que tinha um e sempre bancava o bonzão: um vizinho playboy, um primo abonado, um coroa metido a garotão. Os meninos sonhavam em ser como eles e as meninas davam seus nomes aos seus bonecos “Ken”, famosos garotões sarados namorados de nossas Barbies.

Crescemos e, ao contrário de nossos pais, não vivemos no milagre brasileiro. Nosso sonho de consumo ficou difícil de se tornar realidade... Mas a nostalgia, e a oportunidade, fizeram com que o nosso amigo Djenan pudesse chegar mais ou menos (bem mais pra menos) perto do seu sonho possante. Eis que ele adquire então, a preço de banana, do nosso outro amigo “Zói”, um golzinho quadradinho, caindo aos pedaços, da época de nossos pais, que mal saía do lugar... Mexe aqui, mexe ali, Djenan coloca o carrinho pra andar em toda a grande BH, levando ele a todos os lugares. Sua vida mudou! Apesar de seu novo amigo conseguir beber mais que ele, e fumar tanto quanto, a economia de tempo que ele fez ao deixar de atravessar a cidade em ônibus sempre lotados e muito lentos otimizou sua capacidade de trabalho...

Entretanto, seu carrinho, por melhor que seja, é bastante constrangedor. Apieda-nos o coração a pobre situação do Djenan nos dias de chuva, em que ele nos aparece cedo no escritório com uma lona preta à guisa de vidro, servindo de abrigo às fatídicas gotas de São Pedro.

O chefe do Djenan, um cara muito gente boa, mas que é com certeza a mais rabugenta das figuras de que se tem notícia em todos os tempos (pudera, também: o cara queria fazer cinema e acabou trabalhando com manutenção de computadores...), sabendo da importância da imagem nos dias atuais, contorce seu coração e entrega seu carro nas mãos do nosso amigo Djenan quando este precisa fazer visitas a clientes. E fica então o Vladimir (o chefe) sujeito ao constrangimento de rodar, somente quando absoluta e estritamente necessário, no golzinho do Djenan.

Bom, já dizia o ditado: quem ama o feio, bonito lhe parece. O amor do Djenan pelo famigerado golzinho é o tipo do amor coruja. O cara pegou um carro moribundo e conseguiu fazer seus suspiros agonizantes transformarem-se em roncos de alegria por um dono tão agradecido! Djenan fez o golzinho andar e o golzinho mudou sua vida!

Mas eu acho que ele sabe, no fundo, que seu bólido possante não passa de uma tampa de chaleira mequetrefe que ninguém merece!
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A idéia inicial deste post era mandar uma carta àquele programa “Lata Velha”, do Caldeirão do Huck... Por isso, claro, floreei bastante a história pra dar um tom bem apelativo, de acordo com o intuito... Mas, analisando o carro, achamos que ele está em muito bom estado para que seja contemplado no programa. E outra coisa: ninguém aqui se constrange com ou tem piedade da furreca do Djenan. Por isso, suprimi o último parágrafo, que seria o seguinte:

"É por isso que eu venho, então, fazer um caro apelo ao Caldeirão! Transformem a lata velha que transformou a vida do Djenan! Não só por ele, mas por todos nós que trabalhamos no mesmo local onde fica estacionada essa massa de ferro que nos enche de piedade e constrangimento..."

sábado, 5 de maio de 2007

Trocadáveis Adorilhos (2)

Tão bom quando um comentário faz mais coisas virem à cabeça! Tou falando isso por causa do comentário do Kiko ao post anterior... Esses trocadilhos do Teodomiro são do carilho mesmo, Kiko, sensacionais!

Lembrei de outros dois casos do tipo do "violão dedilhando". Um dum cara que pergunta pro outro:
_ cê come cuscuz?
E o cara responde:
_ não, cas boca...
Acho que aqui eu também vou ouvir um “péssima” (!)... O outro não tem tanto a ver, mas, já que lembrei, lá vai (piadinhas da minha mãe)... O cara chega na rodoviária, e, sem saber como faz pra comprar uma passagem (capiau, coitado, nunca tinha viajado), resolve copiar tudo o que o cara da frente diz. E o cara da frente diz:
_ por favor, eu quero uma passagem pra Aparecida; ida.
Nosso protagonista, então, sem pestanejar, pede, por sua vez:
_ por favor, eu quero uma passagem pra Ubatuba; uba!"....

Beijão, Kiko e demais leitores, e apareçam com mais comentários, sempre muito profícuos!

P.S.: A priori, eu tinha colocado o que está aqui num comentário ao primeiro "trocadáveis adorilhos". Porém, a visualização do texto com os comentários logo abaixo, que aliás, é muito boa, só aparece quando vamos no link pro texto, não aparece no endereço padrão do blog. E como sei que pouquíssimas pessoas lêem blogs, e muito menos procuram saber quais ou quantas possibilidades de visualização eles oferecem, resolvi passar pruma nova postagem, a exemplo do "laranjas e idéias" com seu subseqüente "laranjas e idéias (2)".

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Trocadáveis Adorilhos

Já dizia um amavo do Gustigo, trocadalhos do carilho são a forma mais primitor de humiva...

Sei que depois de ouvir isso, eu me dei conta do quão fácil é se divertir à toa assim...

Lógico que é muito melhor quando eles surgem espontaneamente, fruto da boa presença de espírito com a qual certas pessoas são agraciadas... Mas, na falta dela, trocamos então tudo que nos dá na cabeça...

Eu agora estou na fase dos trocadilhos com nomes de ruas, todas elas por ali nos arredores do meu escritório... O melhor deles, sem dúvida, e foi o Gu quem fez pela primeira vez, é Baúbas de Macarrão... Noutro dia, saiu-me um quase repentino, quando íamos almoçar, e alguém me perguntou onde, eu, na lata, disse: “na Levopes Lindo!”... Boazinha... E há as não tão espontâneas, mas não menos merecedoras de citação, como a Teixeitas de Freira, Marcá de Mariquês, Quintilissilva Ano, Manha de Espar, e por aí vai... Dá pra fazer com tudo!

Quando falei da Baúbas de Macarrão logo aí acima, lembrei-me duma receita que vi, anotada num papel (provavelmente pelo Mozart, amigo do Gu, que era quem tinha preparado o prato), que me deixou rindo uns bons segundos: “bobão de camaró”... Bom demais esse, dos melhores!

Tem algumas coisas que são tão divertidas quanto, pecinhas da língua portuguesa também... Foi ótimo um comentário dum cara uma vez, sobre uma mega surra que o Maguila levou dum cubano: “...é, o Maguila foi levando o pau latinamente...”. Sensacional!

E tem também um cara que morava em Itaparica e mudou pra Groelândia... Quê que isso tem a ver com esse post?... É que não é um trocadilho, mas uma trocadilha... hihihi! (essa última é do meu pai, só pra não perder o costume!)
Bárbavo Ira

sexta-feira, 13 de abril de 2007

laranjas e idéias (dois)

Acabei de comentar essa historinha que publiquei abaixo com o luiz (desta vez não o zé, mas o gazzi macedo, que divide o espaço do escritório comigo), e ele me veio então com uma frasesinha que diz mais ou menos a mesma coisa que a idéia da primeira (mas, claro, não tão bonitinhamente como a do papai zé)...

Ei-la:

"As idéias são a única coisa que ao se dividirem se multiplicam".

laranjas e idéias...

Esta é uma historinha bem pequenininha, ressaltada em negrito pra justificar o título, já que ela é menor que meu comentário... Mas não posso me furtar a comentar que talvez eu esteja ficando repetitiva com essa história de "meu pai" pra cá, "meu pai" pra lá, porque já venho eu cá citar zé luiz de novo, mais uma vez quem me contou esta que aqui repito... Mas, ah, já me valendo do meu estreante "vai ser sério assim no inferno" (de março), mirem-me, mas me errem, ok? E quem manda o cara ter sempre sábios axiomas no vocabulário...

"Se eu tenho uma laranja e você tem uma laranja, e se eu te dou a minha laranja e você me dá a sua, no final das contas, saímos cada um com uma laranja. Agora, se eu tenho uma idéia e você tem uma idéia, e se eu te dou a minha idéia e você me dá a sua, no final das contas, saímos ambos e cada um com duas idéias".

quarta-feira, 4 de abril de 2007

os feriados quando se passa de subordinado a patrão...

Que mané patrão que nada... no meu caso eu só não tenho um chefe fixo (além do sócio majoritário do escritório). Cada novo cliente é um novo chefe, cada nova obra, um novo desafio...
Mas no mundinho das minhas obras, sou praticamente patroa....

Enfim, mudando de pau pra cavaco, bem me lembro de quando trabalhava como contratada na Senior e observava os funcionários... Exatamente às 8 batiam-se os respectivos pontos, exatamente ao meio-dia saía-se pro almoço; às 13:30, exatamente, voltava-se às baias (uns batendo os respectivos pontos e também os de alguns outros um pouquinho mais relaxados - ponto digital era uma farra danada!) e às 17h30, independentemente de onde se estivesse ou do que se estivesse fazendo, largava-se tudo, soltavam-se as canetas, se estivessem em punho, batiam-se os respectivos pontos, desligavam-se os computadores e cascava-se fora, como se existissem duas vidas: a profissional e a outra.

Os feriados eram esperados por todos, funcionários, subalternos e subordinados, como se espera uma dádiva, um prêmio, um acontecimento. Claro que ficavam todos bastante irritados quando a empresa declarava a "emenda" de uma sexta (quando o feriado caía na quinta), mas não deixava de jogar as horas do dia "emendado" nos bancos de horas, por isso mesmo, sempre muito deficitários. Mas claro, se todos eram devedores, estavam todos no mesmo patamar, então, ninguém devia nada, no bom entendimento de salvaguardados pela lei dos mais fracos...

Enfim, tudo é diferente quando somos os responsáveis diretos pelo que tem que ser entregue, pelo produto final. A partir desse momento, cada feriado significa um atraso gigantesco em todos os prazos, e são os nossos subordinados então que largam suas marretas, marteletes, lixas, rolos e ferramentas, para nosso desespero... As lojas fecham, os fornecedores somem, os celulares são desligados, o caos reina na vida do infeliz do responsável pela entrega de seja lá o que for... Quanto mais se aproxima o feriado, maior fica o desespero, a afobação para resolver tudo antes que o dito cujo chegue trazendo o ócio coletivo...

Aí, nessas horas, dá uma vontade de ter a carteira assinada, o décimo terceiro, as férias, inss, fundo de garantia, direito à afastamento por caso de morte de membro da família (geralmente daquele que já morreu várias vezes) ou doença... E de uma certa falta de responsabilidade sobre qualquer coisa além daquilo que só você podia ter feito.

sábado, 31 de março de 2007

notáveis primeiras frases de livros notáveis

Aproveitando o ensejo da última postagem (Tolstói e Melita), lembrei de uma situação que meu pai zé me contou sobre sua paixão pelos primeiros parágrafos... Aliás, eu fiquei sabendo dessa história dos primeiros parágrafos exatamente na época em que comecei a ler Anna Karênina e papai me falou da frase das famílias felizes que se parecem...

Disse ele que um dia estava passando pela Rua Ceará e encontrou o Roberto Drummond, que acabou por lhe pedir uma carona pralgum lugar na Pampulha (pra onde papai estava indo, se não me engano). Eles foram batendo papo no caminho, e meu pai estava falando com ele justamente sobre os primeiros parágrafos ou frases de livros que acha notáveis, e me disse que foi uma conversa muito prazenteira.

No dia seguinte então, pra deleite do zé luiz, o Roberto Drummond, colunista que era do Estado de Minas, aparece-nos com uma crônica sobre notáveis primeiras frases de livros notáveis na sua publicação semanal no jornal.

Eu não vi o texto, queria muito ter visto... Qualquer hora dessas vou até ver se acho nesses sites da vida (e se alguém já o tiver visto também, por favor, dê um toque).

Além do parágrafo do Ana Karênina que citei aqui no Tolstói e Melita, lembrei do primeiro parágrafo do Mãe, (Gorki), mais um dos que papai me falou (por que dois russos?, vá perguntar pro meu pai...):

"Todos os dias, o apito pungente da fábrica cortava o ar enfumaçado e pegajoso que envolvia o bairro operário e, obedientes ao chamado, seres sombrios, de músculos ainda cansados, deixavam seus casebres, acanhados e escuros, feito baratas assustadas. Sob o frio amanhecer, seguiam pela rua esburacada em direção às enormes jaulas de pedra da fábrica que os aguardava desdenhosa, iluminando o caminho lamacento com centenas de olhos empapuçados. Os pés pisavam a lama. Vozes sonolentas emitiam roucas saudações, palavrões dilaceravam, raivosamente, o ar. Mas eram diferentes os sons que acolhiam os operários: pesadas máquinas em funcionamento, o resfolegar do vapor."

A paixão dele pela frase do Ana Karênina talvez venha da perspicácia dela. Quanto ao parágrafo do Mãe, acho que está na beleza da narrativa. Se bem me lembro, em sua prolixidade peculiar, foi isso que papai me disse...

Tolstói e Melita

Pouco tempo atrás eu fiquei muito impressionada com uma dessas coincidências da vida...

Eu tinha acabado de começar a ler o livro Ana Karênina, e meu pai, que sempre me fala alguma coisa de todos os livros antes de eu começar a leitura, me falou então da paixão dele pelo primeiro parágrafo do livro, que diz que "todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

Enfim, estava eu no aniversário de uma amiga e conheci uma estudante de arquitetura intercambista croata, a Melita, que acabou se tornando uma ótima amiga. Claro que, para não fugir ao amor pelo português e aos bons costumes, tentei conversar com ela na minha querida língua portuguesa*, mas, já chapadinha (e empolgada em treinar meu inglês), aproveitei a resistência dela para patatipatatar em inglês mesmo...

O assunto, claro, começou sobre a questão de em que língua se falar, e pulamos das línguas pros livros etc. Eu, que do leste europeu pouco sei, resolvi passar pra Rússia, donde não sei quase nada também, mas pelo menos já me aventurei na literatura. Aí, comentei sobre tolstói, e sobre o livro, Ana Karênina. A primeira coisa que a Melita disse sobre o livro, então, foi a citação deste primeiro parágrafo. Fiquei boquiaberta, porque meu pai tinha acabado de me falar sobre ele, e eu, acabado de lê-lo. Talvez por isso eu tenha ficado tão maravilhada com a Melita e tenha me dedicado tanto a ela que, ela, em agradecimento ao carinho, talvez, ou afinidade mesmo, retribuiu minha amizade gratuita com mais carinho e gratuidade ainda!

Agora ela foi embora, mas ficou um bom contato nos bálcãs...

*amo português, mas, para os chatos de plantão, sempre deixo passar erros, ok? Toda ajuda será bem vinda!

vai ser sério assim no inferno!

Me rendi, então, finalmente, me rendi!

estava na hora... este é o início, não sei, talvez seja fogo de palha.

Será uma boa experiência. Toda nova experiência vale a pena, já dizia a epígrafe do Esaú e Jacó... Aqui, há a publicidade da coisa, muda tudo. Não falarei tanto do que acontece comigo, nem serei sincera quanto a absolutamente tudo o que penso. Acho que não. Como era antes de enfim me render ao teclado e à tela.

Sentirei falta dos meus lápis de cor, canetas de tipos diferentes para as caligrafias de cada tipo de humor, minhas colagens, ficava tudo bem mais subjetivo, pessoal...

Vou ficar com preguiça de anexar imagens, coisinhas? Como será? Não será mais tão espontâneo?

Minha alma não é pequena... e como diz tom zé, porque então essa mania danada, essa preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de se sorrir tão sério, de se chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério? Ai, meu deus do céu vai ser sério assim no inferno!